quinta-feira, 15 de junho de 2017

Torcida organizada e estilos de masculinidade

A pesquisa sobre a dinâmica sociocultural das torcidas organizadas de futebol constitui um importante campo de produção de conhecimentos, que nos ajuda a entender/analisar a dimensão histórica e simbólica que permeia o mundo dos esportes e os processos de identificação e socialização atrelados. Nesse contexto, buscando subsidiar a socialização do conhecimento e visando fomentar abordagens críticas, adequadas à complexidade do tema, temos a satisfação de contar com a colaboração de dois importantes pesquisadores do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT) da Universidade de Minas Gerais. Confiram o texto, links e referências que aglutinam importantes pesquisas sobre a temática:


Torcida organizada e estilos de masculinidade.


Flávia Cristina Soares
Psicóloga, Especialista em Gestão Social pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro, Mestra em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais e Doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pesquisadora do GEFuT – Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas da EEFTO/UFMG.

Leonardo Turchi Pacheco
Pós-doutorando pelo PPIEL/EFFTO da Universidade Federal de Minas Gerais. Doutor em Historia Social da Cultura pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor do Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal de Alfenas. Pesquisador do GEFuT – Grupo de Estudos sobre futebol e Torcidas da EEFTO/UFMG.


         A primeira associação de torcedores foi consolidada no país com a finalidade de festejar os gols e os lances dos jogadores durante as partidas de futebol, conhecida por charanga do Flamengo – fundada por Jaime Rodrigues de Carvalho – em 1942 (TOLEDO, 1996: 21). Logo, um jornal da época promoveu a competição entre os torcedores rubro-negros[1] e os tricolores[2], na cidade do Rio de Janeiro denominado de “batalha dos confetes”. Esta “batalha” premiava as torcidas de acordo com a melhor charanga, a maior vibração, a melhor comemoração de gol, a apresentação do maior número de bandeiras além da originalidade dos torcedores (BUARQUE DE HOLLANDA, 2012: 107-108). Este período foi denominado de “carnavalização” das torcidas, uma vez que o principal objetivo dos torcedores era carnavalizar a festa na arquibancada, fato que impulsionou uma verdadeira disputa de poder entre os torcedores destes clubes adversários (BUARQUE DE HOLLANDA, 2012: 109).
        Pouco a pouco, este fenômeno foi se transformando e os jovens se organizaram em torno de identidades consolidando as “torcidas jovens” formadas pela proximidade de moradia, período chamado de “juvenilização” das torcidas, entre os anos de 1960 a 1980 (BUARQUE DE HOLLANDA, 2012: 114). Nesta época, as torcidas confeccionaram camisetas, bandeiras e diversos objetos com seus próprios simbolismos, além de produzir carteirinhas e instituir o pagamento de mensalidades com a finalidade de arrecadar recursos financeiros para investir nos materiais utilizados nas arquibancadas. 
        Concomitante ao período denominado de “juvenilização” das torcidas, a ditadura militar foi instaurada no país. Com o fim do regime militar, o “espírito de época” – violento e autoritário – foi incorporado pelos torcedores organizados, fenômeno observado através dos jornais impressos e televisivos que noticiavam os confrontos travados entre os jovens que representavam os mais diferentes clubes de futebol brasileiro (BUARQUE DE HOLLANDA, 2012: 115). Portanto, os estudos realizados por Luiz Henrique de Toledo aponta que as torcidas organizadas surgiram com a finalidade de “ocuparem um espaço político até então não reivindicado pelos torcedores comuns” (1996: 31).  
Em 1988, a primeira morte ocasionada pela rivalidade entre os torcedores organizados utilizando arma de fogo foi praticada supostamente pelos membros da torcida organizada Gaviões da Fiel com a intenção de exterminar o fundador da Mancha Verde, Cleofasóstenes Dantas da Silva (BUARQUE DE HOLLANDA, 2014: 152). A partir desse momento, uma série de episódios violentos promovidos pelos torcedores organizados rivais marcaram os dias destinados às partidas futebolísticas.
Entretanto, a violência entre os torcedores de clubes de futebol não é um fenômeno constatado apenas no Brasil. Um dos primeiros estudos sociológicos sobre o fenômeno foi realizado por Norbert Elias e Eric Dunning (1992), amplificando um debate proposto sobre juventude e estilo de vida entre as classes trabalhadoras no pós 2ª guerra mundial por cientistas sociais ingleses (HALL and JEFFERSON, 1976). Por sua vez Elias, Dunning e toda uma gama de pesquisadores formadores da Escola de Leicester, destacaram que os agrupamentos juvenis de classe operária aficionados por futebol – portanto, homens, jovens da classe trabalhadora, com pouca qualificação profissional, executando trabalho braçais na sua maioria – conhecido por hooligans, provocavam conflitos com os torcedores rivais dentro do reino unido e durante as viagens realizadas a outros países para acompanhar os clubes de futebol (ELIAS e DUNNING, 1992, DUNNING, 2014).  Baseados nessas constatações, eles propuseram uma explicação da violência desses jovens pelas “normas de masculinidade” que eles adotavam. Nesse sentido, a violência que aparentemente seria irracional foi compreendida por uma série de motivações que dotavam de sentido a vida desses sujeitos. Assim esses comportamentos observados como vandalismos seguiam uma lógica específica de valores dos atores sociais envolvidos em atividades como a defesa do território de moradia, o prestígio conquistado através das lutas corporais e o enfrentamento com rivais como forma de dinamização na vida e como emoção agradável e prazerosa, beirando o prazer erótico.
         Pensando novamente o contexto brasileiro, desde o final da década de 1980, alguns estudos procuraram elucidar o funcionamento das torcidas organizadas. Em sua maioria, essas pesquisas se concentraram principalmente nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro e procuraram compreender os confrontos entre os jovens pertencentes a tais grupos.  Em que pese à semelhança das torcidas organizadas em Belo Horizonte com a de outros Estados – visto que elas foram constituídas a partir da imagem das demais torcidas organizadas que possuem notoriedade no cenário brasileiro como, por exemplo, a Força Jovem do Vasco, a Raça Rubro-negra, a Young Flu, a Gaviões da Fiel e a Mancha Alvi-verde –, é possível vislumbrar particularidades no contexto local.
A partir de uma pesquisa de longa duração com jovens torcedores organizados da capital mineira pode-se verificar que a questão da masculinidade é semelhante ao que os autores de Leicester apontaram. Tanto lá como aqui é possível observar a construção de um sistema de regras e condutas instituído pelos próprios grupos, distinto das manchetes jornalísticas. Verifica-se uma normatização da violência ou como indica Buford (2010) no contexto do hooliganismo inglês uma “violência controlada”. Isso que dizer que existem regras em jogo nos conflitos entre as torcidas organizadas. Nada aqui funciona como se uma ordem de bárbaros atacasse a todos sem distinção e sem objetivos específicos, uma violência sem sentido e randômica. Muito pelo contrário. O que gostaríamos de apontar é que os conflitos ocorrem entre os grupos de jovens que se preparam para lutar fisicamente com os rivais pelos demais espaços da cidade. Assim, qualquer pessoa que se encontra em condições físicas consideradas como inferiores como, por exemplo, idosos, mulheres, crianças ou transeuntes, não há o estabelecimento de embates físicos. O comportamento agressivo em relação a essas pessoas é denominado pelos torcedores organizados de “covardia”, fato que não é bem visto entre eles.
As relações sociais estabelecidas entre os torcedores organizados indicam que nem todos os adversários são considerados como inimigos, uma vez que há uma história de confrontos instituída ao longo dos anos entre os jovens e eles se reconhecem através das atitudes, tatuagens estampadas pelo corpo, camisetas e pelo modo de vida. A utilização de armas de fogo não é bem vista entre os torcedores organizados da metrópole, uma vez que obter um corpo musculoso e viril é o principal objetivo desses jovens. Estes instrumentos de ataque demonstra a fragilidade do jovem perante os demais. Estas lutas físicas são chamadas de “trocação”, isto é, “brigar na mão”, conforme explica um torcedor organizado. Além disso, o confronto físico se encerra na medida do momento que o jovem não tem mais condições para lutar, “se ele caiu, não há motivos para matar, nós vencemos a batalha”.
Nestes confrontos, o jovem demonstra coragem, persistência, resistência física e tolerância à dor, atributos imprescindíveis para a construção de masculinidades. Verificamos estilos de masculinidades plurais entre esses jovens (CECCHETTO, 2004). A particularidade observada no contexto local se associa aos estilos de masculinidades quando deparamos com a categoria nativa “cria”. Verifica-se uma hierarquização de masculinidades onde o “cria” se encontra em um patamar de submissão aos lideres que, por sua vez, são considerados como a masculinidade hegemônica nesse campo. Tudo se passa como se o “cria” estivesse em processo de construção da sua legitimação como homem pertencente de fato a torcida organizada. Assim em relação aos “novatos” ou “cria”, há a proibição de subir no teto dos coletivos que estão circulando pela cidade nos dias destinados às partidas de futebol para “surfar”, uma vez que esta situação atrai os olhares dos policiais militares para apreendê-los, fato que não é bem visto pelos jovens. Neste caso, os líderes da torcida organizada dão uma advertência verbal ao “cria” que, ao mesmo tempo, se trata de uma reprovação ao comportamento, quanto um ensinamento do que se espera de membros de uma determinada torcida organizada. E o que se espera, segundo os próprios sujeitos envolvidos nessa relação social é o reconhecimento da “disposição” masculina para lutar fisicamente contra os rivais e não por comportamentos considerados por eles mesmos como não apropriados.
Assim, gostaríamos de reforçar que há uma incongruência na percepção de outros atores sociais sobre o comportamento do torcedor organizado e a autopercepção desses torcedores. Se para a mídia o comportamento desses sujeitos é retratado como a expressão da vagabundagem ou da marginalidade e de uma violência que não respeita regras, pois que é indistinta, nas narrativas dos torcedores organizados, é possível revelar um código de conduta com regras especificas e uma lógica própria. O que se observa, portanto é que o embate físico faz parte de um estilo de vida, marcado por masculinidades plurais, construído e negociado entre os aliados e os rivais, respeitando, na maioria das vezes, àqueles que não compactuam com o mesmo estilo e nem seguem as mesmas normas. O que se constata é que estamos diante de pessoas que se comportam seguindo um código de conduta marcado por regras especificas e bastante rígidas e não, como quer a cobertura midiática e setores da sociedade civil, de uma turba de arruaceiros, delinquentes e vagabundos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BUARQUE DE HOLLANDA, Bernardo [et al.]. A torcida brasileira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012. 164p.

BUFORD, Bill. Entre os vândalos: a multidão e a sedução de violência. São Paulo: Companhia das letras, 2010.

CECCHETTO, Fátima Regina. Violência e estilos de masculinidades. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.

DUNNING, Eric. Sociologia do esporte e os processos civilizatórios. São Paulo: Annablume, 2014.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Erich. Memória e Sociedade a Busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.

HALL, Stuart and JEFFERSON, Tony (Ed.). Resistance through rituals: youth subcultures in post-war Britain. London: Routledge, 1976.

TOLEDO, Luiz Henrique de. (1996). A cidade das torcidas: representações do espaço urbano entre os torcedores e torcidas de futebol na cidade de São Paulo. In: MAGNANI, J. C., TORRES, L. Na metrópole: textos de Antropologia Urbana. São Paulo: Edusp, Fapesp. pp. 124-155.
   


[1] Torcedores rubro-negros representam o Clube de Regatas do Flamengo.
[2] Torcedores tricolores representam o Fluminense Football Club.
   

LINKS COM PRODUÇÕES DOS AUTORES


- "Os pit bulls estão sem coleira": as intervenções do poder estatal e a mudança de comportamento dos integrantes de um subgrupo pertencente a Torcida Organizada Imperial - http://www.uff.br/esportesociedade/pdf/es2808.pdf

- Pixação em Belo Horizonte: identidade e transgressão como apropriação do espaço urbano. 

- Memórias da tragédia: masculinidade e envelhecimento na copa do mundo de 1950 http://oldarchive.rbceonline.org.br/index.php/RBCE/article/view/510/0

- Futebol, masculinidade e a "amizade sem limites" https://pontourbe.revues.org/1450 

- Narrativas midiáticas sobre envelhecimento e desempenho esportivo: a derrota da copa do mundo de 1986 https://www.revistas.ufg.br/Opsis/article/view/23362#.WULmuWjyvIU