sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nietzsche e o conceito de força: uma inspiração para pensar a Educação Física



É com alegria que iniciamos nossas postagens do semestre 2016.2 com o trabalho de Fidel Machado de Castro Silva, doutorando do Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. O autor propõe uma riquíssima interpretação sobre o conceito de força em Nietzsche e realiza uma análise apropriada e criativa sobre a pertinência da reflexão nietzscheana ao mundo (social, cultural e subjetivo) das práticas em Educação Física. O trabalho de Fidel é potente para, dentre várias das reflexivas possíveis, aprofundar conheciementos sobre o corpo vivo e seu fortalecimento. Apreciem o texto, comentem, entrem em contato para maiores informações sobre o GEPSAFE e nossos trabalhos!
 

Nietzsche e o conceito de força: uma inspiração para pensar a Educação Física

Fidel Machado Castro Silva


Este texto situa a Educação Física como um saber que opera com a educação do corpo, destacando nessa educação o conceito de força. Ainda que esse conceito refira-se, fundamentalmente, a elementos fisiológicos e biomecânicos, compreende-se que há uma projeção de sua representação no imaginário da área, compondo uma percepção híbrida do que significa o desenvolvimento da força. Propõe-se uma reflexão acerca do conceito de força e de homem forte a partir de elementos da filosofia de Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), contrapondo estes argumentos com o imaginário de força comumente presente na Educação Física. Percebe-se que a Educação Física parece ainda conceber e analisar os fenômenos ligados ao corpo de modo mecânico, até mesmo subserviente a padrões sociais de beleza e compleição corporal.
Averiguar os modos pelos quais o homem se relaciona com o seu corpo tornou-se uma problemática multifacetada, em que questões de divergentes esferas, como ética, política e estética influenciam diretamente no comportamento contemporâneo e precisam ser também consideradas.
Dadas essas reflexões iniciais, podemos afirmar que o corpo perfeito, presente, em uma parcela considerável do imaginário contemporâneo, recebe um tratamento dicotômico, pois, ao mesmo tempo em que é cultuado e enaltecido, é também domesticado e explorado. As intervenções no corpo estariam gerando um comportamento de aproximação ou de distanciamento do corpo que somos e de nós mesmos?
Destarte, refletir acerca dos valores morais presentes no ideal de corpo surge como uma possibilidade de inversão e tresvaloração do conceito atual de força citado anteriormente, para que, assim, possamos conjecturar a realização de uma educação ativa - e não passiva - da força. Dado que o nosso intuito primeiro é ampliar o espectro das formas como trabalhamos e concebemos o corpo, propomos uma reflexão sobre a Educação Física que busque tresvalorar essa força em uma volição energética ativa, e não meramente reativa.
No pensamento de Nietzsche, o corpo é algo incessantemente dinâmico. Todo esse dinamismo tem como matriz os conflitos e embates decorrentes das forças em luta. Toda essa movimentação incessante de energias e pulsões acontece no corpo. Jacubowski (2011) apresenta-nos uma interpretação da concepção de Nietzsche sobre o corpo, como um conjunto de forças antagônicas em constante luta por dominação. O corpo, dessa forma, é o, lócus dos instintos mais primitivos do homem, e todo e qualquer conhecimento que venha de encontro às pulsões e às volições energéticas instintivas é oriundo de uma fonte débil e doentia. Segundo Barrenechea (2009, p. 51): “o corpo é a expressão do dinamismo do vir-a-ser, jamais se fixa, jamais se estabiliza, mudando conforme o impulso ou o grupo de impulsos que, num instante efêmero, impõe sua vontade à comunidade orgânica”.
Nietzsche (2009) afirma que no corpo estão inseridos todos os instintos naturais e as forças que exprimem a vontade de potência. Entretanto, tais forças podem ser compreendidas de formas distintas, variando de acordo com a sua direção, caso tenhamos uma força oriunda de forma livre, afirmativa e espontânea. Em busca de dominação, criação e expansão, estamos, pois, diante de uma força ativa. A força é nesse caso compreendida como uma disposição energética volitiva inerente e imanente aos corpos, cuja potência se revela com variação e oscilação de intensidade que se renovam e se transformam indefinidamente.  Em contrapartida, caso tenhamos uma força que só age em reação às ações exteriores é preciso um outro, fora de si, para existir. Temos, portanto, uma força ressentida.
Analisemos essa força na qualidade de pulsões, afetos e instintos. Jacubowski (2011) afirma que o conceito de força, em especial, não diz respeito à capacidade de um “objeto” mover outro - seja por atrito ou ação muscular ou ação à distância. O conceito de força em Nietzsche, como já foi supracitado, remete à vontade de potência, à dinâmica das pulsões vitais, ou melhor, uma ânsia incessante de manifestar potência ou, simplesmente, o exercício da potência como força criadora que busca sempre tornar-se mais forte, cada vez mais.  É evidente, como sinalizado, que o conceito de força é fundamentalmente diferente na Filosofia de Nietzsche e na Educação Física. Poderíamos até dizer que se tratam de coisas absolutamente distintas e termos a impressão de um equívoco lógico ao se colocar estes dois conceitos que parecem estar unidos unicamente por serem homônimos. O que Nietzsche chama de força corresponde a um conjunto polissêmico de disposições do humano ao passo que, na Educação Física, o resultado prático da ação muscular convertida em esforço mecânico (físico) é o que está em foco. Contudo, se nesse texto, propusemos essa espécie de contaminação consentida entre as acepções é por compreendermos que, de modo subjacente ao conceito de força utilizado pela Educação Física, está presente uma concepção ampla de corpo, balizada pela educação moral, preocupações estas pertinentes ao conjunto da reflexão nietzschiana na qual o conceito de força está incluído. Em outros termos, se uma educação do corpo se restringe ao aspecto mecânico da força, ignorando que a ação do corpo é sempre a ação de um homem existencial, talvez haja aí um dispositivo de controle moral no qual o que se intenciona é um corpo reativo e não ativo.
Ao longo da história houve uma inversão conceitual em que o corpo forte, presente, em parte significativa, no imaginário contemporâneo tanto da sociedade como da Educação Física, parece preencher as premissas do homem fraco (ressentido) por diversos fatores. Dentre eles, ressaltamos três: a sua incapacidade e limitação de não aceitar as mudanças de compleição corporal advindas do próprio devir, recorrendo, por vezes, a procedimentos cirúrgicos para tentar atenuar os efeitos causados pela idade; o caráter passivo e não reflexivo das suas ações, que visam somente às formas imediatistas para atingir os fins; e a desatenção aos verdadeiros interesses e necessidades do próprio corpo. Apropriando-se de soluções comercializadas que em nada alteram ou suprem as reais carências somáticas e, principalmente, colaboram para a massificação e a homogeneização das formas de experienciar e de ser corpo.
A prontidão imagética de corpos sempre belos incute no imaginário social comportamentos para se buscar sempre o jovem. A beleza é reduzida a contornos corporais bem definidos e não como afirmação da efemeridade. A desatenção às necessidades do corpo promove uma aversão aos caos, ao grotesco, ao diferente, ao novo. Superar esses limites e imposições requer uma postura corajosa e afirmadora típica do forte. Viver norteado por um ideal de corpo implica em negar a vida como fluxo e movimento inexorável de energias, de forças distintas que se encontram em um frequente jogo agonístico. Dessa forma, supomos que, a partir do exposto, o homem fraco, para Nietzsche, é o homem sob o jugo da moral, da razão e da pesada tábua de valores, ou melhor, o homem reativo. Influenciado pelos valores superiores morais que o aprisionam e o impossibilitam de desfrutar dos prazeres e dos desejos emanados do corpo. Tal comportamento limita e reduz a capacidade do ser de expressar a sua própria força interior.


O corpo é fundamental para o aproveitamento de uma ética do querer-viver. Entretanto, não podemos nos prender à forma do momento presente, pois a própria ética do viver e do dizer “sim” à vida tem como prerrogativa basilar as mutações. O indivíduo ativo e soberano não teme a morte, pois seu espírito direciona sua técnica e sua energia para a vida, e não para a morte.
A força apresenta-se como uma tecnologia de transformação. A força ativa detém em si uma potência para realização de uma tresvaloração, compreendida como a capacidade de modificação e inversão da ordem vigente, para, assim, possibilitar uma libertação dos grilhões impositivos da distorção causada pela má interpretação da força.
A tresvaloração propiciaria, provavelmente, maior liberdade de aprendizagem e experiência dos corpos e fuga da domesticação do homem, como o próprio Nietzsche (2005, p.77) afirmou: “fugi do mau cheiro! Fugi da fumaça desses sacrifícios humanos”. São esses sacrifícios que, em suma, transformam o homem em um ser fraco e reativo. Vivemos em um tempo que nos induz a práticas ressentidas, passivas. A força e a autonomia dos corpos enfrentam resistências de âmbitos diversos. Por medidas provisórias, o corpo passa a sofrer cada vez mais coerções, reduções e desvalorizações.
Para que todo esse movimento de tresvaloração seja possibilitado, é imprescindível o reencontro do ser humano com seu principal aliado: o corpo e as relações de forças e instintos, ou melhor, o jogo de forças que o permeiam. A revaloração e a reafirmação dos significados, da importância que o corpo possui e foi perdida durante a história.
A Educação Física, na sua seara de educação do movimento, possui, como uma de suas razões de ser, o fato de que o homem é um ser corporal e motriz. Devido a essas características, carece de aprendizagem ampla e significativa das experiências corporais, para poder lidar de forma mais espontânea e autêntica com a sua corporeidade e com as diversas possibilidades de movimentações.
Permitir experiências de empoderamento sobre o movimento e o corpo é possibilitar uma educação da força, do movimento espontâneo. Entretanto, é preciso manter-se sempre atento para que tais experiências não incorram na armadilha do relativismo. O intuito é propiciar a ampliação e a perspectiva de ver o movimento humano como experiência corporal. Gonçalves (2012, p. 177) pondera:

É o homem todo que está em jogo, e levá-lo a viver com plenitude sua corporalidade, em sua abertura para o mundo, parece-nos ser o objetivo primeiro da Educação Física, objetivo que fundamenta todos os outros.

Consideramos proveitoso que a Educação Física possa condensar os saberes e ampliar toda a potência do conhecimento emanado do corpo, para que possamos dar vazão à filosofia vitalista e possibilitar dizer “sim” à vida, sem o jugo impositivo das normas e dos modelos corporais.
Por essas razões aqui apresentadas é que compreendemos a Educação Física também como agente da construção de saberes sobre o corpo e vetor de suma importância para a tresvaloração da força. Cabe a ela debruçar-se, com propriedade, sobre esse fenômeno cultural, polimórfico, polissêmico, central à vida, sem reduzi-lo às meras habilidades mecânicas.
Faz-se necessário refletir acerca do uso e da significação do conceito de força para vislumbrarmos um modelo de reflexão que apresenta uma alternativa não passiva nem mecânica para a educação da força. Reaproximar o homem da vida é reacender o seu princípio criativo. É reconciliá-lo com o seu corpo, sua grande razão, o seu maior sábio, só assim conseguirá aumentar a sua força.


REFERÊNCIAS:
BARRENECHEA, Miguel Angel de. Nietzsche e o corpo. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.
GONÇALVES, Maria Augusta Salin: Sentir pensar agir: corporeidade e educação. Campinas, SP: Papirus, 2012.
JACUBOWSKI, Felipe Renan. Nietzsche: O discurso de Zaratustra contra os desprezadores do corpo. Theoria: Revista Eletrônica de Filosofia, Pouso Alegre, v. 3, n. 6, p.142-156, jun. 2011. Quadrimestral. Disponível em: <http://www.theoria.com.br/?p=45>. Acesso em: 2 jun. 2016
NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
____________, F. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Minha experiência de praticante: por outras perspectivas de correr

                


Damos, aqui, seguimento à sessão "Minha experiência de praticante", que contém relatos de experiências e vivências com práticas corporais e esportivas. 

Temos a satisfação de publicar em nosso site o rico texto do professor Raphaell Martins. Em paralelo com a postagem anterior (gepsafe.blogspot.com.br/2016/05/minha-experiencia-de-esportista.html), temos no texto "Por outras perspectivas de correr" uma instigante reflexão sobre a prática da corrida, que nos ajuda a ampliar o modo como interpretamos a prática de atividade física e esportes, entrando em contato com uma rede de significados socioculturalmente construídos e uma pluralidade de sentidos psicológicos implicados.

POR OUTRAS PERSPECTIVAS DE CORRER

Raphaell Martins 
(Licenciado em Educação Física. Especialista em Educação Física escolar. Mestre em Educação Brasileira. Doutorando em Desenvolvimento Humano e Tecnologias. Professor da SEDUC-CE e da Fametro. Membro dos grupos de pesquisa Saberes em Ação e Letpef).




Os primeiros mil quilômetros correndo foram superados. Metros alcançados em várias partes do Brasil. Correndo pela manhã, no final da tarde e noite. Ouvindo música, rádios e acompanhando jogos de futebol. Muitas vezes, rezando e estudando, acreditem, até estudar foi possível. Apreciando a natureza ao meu redor dos vários locais que atravessei principalmente a paisagem da praia do Icaraí-CE, que foi na vivência da corrida, que pude perceber a beleza e os detalhes que minha comunidade expressa que antes não era tão claro de se identificar.
Essa perspectiva própria de se comportar na corrida expõem algumas características que merecem ser destacadas, a que mais me orgulho é a postura de cumprimentar as pessoas na vivência da corrida, oferecer um “bom dia” é um atitude natural quando estou correndo, para os que estão correndo, além de conceder o bom dia, expresso um gesto com um punho esquerdo erguido e fechado, que particularmente caracteriza uma partilha de força, como se pudesse socializar um boa vibração. Para os motoristas, aceno em forma de agradecimento, no sentido que compartilhamos os mesmo espaços e como não apresento uma postura de enfrentamento nas ruas, expresso gratidão quando vejo os motoristas desviando o caminho para não dificultar o trajeto.
A opção pela corrida se constituiu por compreender que essa prática corporal, contribui efetivamente para o cuidado com o corpo e com a saúde. Escolhi a corrida por reconhecer na vivência da marcha diária, um momento de lazer e uma oportunidade de introspecção com o meu próprio eu, ou, acessar os vários eu(s). Observei na corrida à necessidade de identificar sua lógica interna e sua sistematização, para estruturar uma rotina de treino exequível, fato que me garantiu nunca se lesionar, ou, perder o interesse por essa prática corporal. Para, além disso, corro por ser um humano que olha para frente com esperança e rumo ao inédito-viável.
 Comtemplar a marca de mil quilômetros, só tem sentido nesse momento, pelo mesmo valor que foi atribuído quando consegui correr três quilômetros pela primeira vez, e assim por diante. Esse detalhe é outra característica própria da corrida, a oportunidade de valorizar cada passada. Não faço projeções para o futuro do ponto de vista quantitativo, o único desejo que almejo é continuar tendo o prazer em correr. Essa é a maior fronteira que a área de Educação Física, por exemplo, deve superar, não é evidenciar que as práticas corporais são componentes fundantes para o bem viver. Mas, garantir o prazer e a dignidade na experiência das práticas corporais.