quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Um olhar sobre aspectos psicossociais do Crossfit

Temos a satisfação de publicar, aqui, um interessante texto da psicóloga do esporte Liana G. Benício Castro, que discute o Crossfit como uma modalidade de atividade física que tem ganhado cada vez mais adeptos. O texto toca em questões importantes que precisam ser discutidas por praticantes, interessados e envolvidos com a modalidade, no sentido de pensar uma prática de atividade física potente na promoção da saúde. No momento em que vemos o crescimento no número de adeptos, disseminação de competições e crescimento de instituições e de disputas dentro de uma modalidade, as questões colocadas pela profissional tornam-se pontos de partida para ampliar a reflexão coletiva entre os envolvidos.



Um olhar sobre aspectos psicossociais do Crossfit

Liana Gláucia Benício Castro

(foto de uma competição de Crossfit)



Crossfit é um programa de treinamento de força e condicionamento físico baseado em movimentos funcionais (como agachar ou saltar), feitos em alta intensidade e constantemente variados, que busca desenvolver e melhorar todas as nossas capacidades físicas. Resistência cardiovascular (respiratória), muscularforçaflexibilidadeprecisãopotênciaagilidadeequilíbriocoordenação e velocidade são alguns dos elementos envolvidos na prática do Crossfit. Em Fortaleza, o crossfit é uma modalidade de prática de atividade física que vem crescendo bastante. “Me adentrei” no universo do crossfit em maio de 2016, quando fui convidada a acompanhar alguns atletas de um box em Fortaleza. De maneira geral, minha opinião sobre a prática se sustentava em um discurso que me parece ser comum às pessoas que não tem muito conhecimento ou contato com a área: “o crossfit é coisa de gente maluca; o crossfit lesiona e acaba com as pessoas; o crossfit é moda...”
No decorrer da minha experiência de acompanhamento desses atletas, procurei observar se esses discursos tão difundidos e engessados sobre os males da modalidade tinham algum fundamento. O universo “crossfiteiro” se sustenta em uma lógica sociocultural muito particular, que está intrinsecamente ligada ao fenômeno atual do fitness, que significa estar em boa forma. Porém, no caso dessa prática, muitas vezes, estar em boa forma, pode não significar ter saúde.
O crossfit é constituído por boxes. O box é o espaço onde se pratica o crossfit e cada box possui uma identidade (valores, práticas, marca, tipo de treinamento, lema, professores, etc.). Durante as competições, os atletas vestem a camisa dos seus respectivos boxes, representando-os. Consequentemente, trava-se uma “batalha” entre os boxes, numa disputa de quem é o melhor. E muitas vezes esse melhor vem na forma do “a qualquer custo”. Nesses casos, o fair play e os limites do corpo humano são negligenciados.
Muitos atletas, tentando chegar ao topo, pulam etapas de uma preparação física e de treinamento técnico gradual e periodizado, cujo os resultados somente seriam possíveis a longo prazo. Encurtando a caminhada, alguns procuram os anabolizantes, outros terminam por se lesionar e, muitas vezes, ambos. E, mais grave do que isso, através desses atalhos acabam, realmente, chegando a vencer competições, virando referência. Entramos, então, em uma grande bola de neve. Jovens atletas se espelham nesses “homens/mulheres máquina” e querem seguir o mesmo caminho, virando um processo cultural dentro da modalidade.
A grande questão está na reflexão do porquê e como é ensinada a prática da modalidade. Muitos coaches se cegam pela vaidade de ter seu boxe e seus atletas como melhores, e não percebem que, como consequência, reforçam os discursos negativos relacionados ao crossfit e acabam enfraquecendo a categoria, ao invés de fortalecer e firmar de vez sua prática. Além disso, o exagero nos treinamentos e competições são reforçados por esses coaches, com a finalidade de se chegar ao limite do corpo humano, sem ter uma avaliação ou um cuidado com a consequência desses exageros.
Tive a sorte de trabalhar em um box que me provou que o crossfit é uma modalidade que, se feita de uma forma profissional e respeitando as limitações dos seus praticantes, pode ser um excelente exercício de condicionamento físico, uma excelente forma de cuidar da saúde. Como psicóloga do esporte, percebo que o crossfit, por ser uma modalidade extremamente dinâmica, pode proporcionar prazer pela prática, superação, resiliência mental, e, principalmente, promoção de saúde física e mental. É o que vejo diariamente no box, que tem como prioridade treinamento sério e periodizado por competentes profissionais de educação física, além do acompanhamento de nutricionista, fisioterapeuta e psicóloga. Ainda como parte de minha responsabilidade e ética profissional, como psicóloga do esporte, vejo que é necessário incitar meus colegas de profissão a refletirem e se apropriarem sobre a temática, que está se tornando uma prática muito difundida. O crossfit “está aí”, como fenômeno, porém, ainda um pouco abandonado em relação a discussões éticas e sobre suas possíveis regulamentações profissionais.


Algumas referências para interessados:






 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nietzsche e o conceito de força: uma inspiração para pensar a Educação Física



É com alegria que iniciamos nossas postagens do semestre 2016.2 com o trabalho de Fidel Machado de Castro Silva, doutorando do Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. O autor propõe uma riquíssima interpretação sobre o conceito de força em Nietzsche e realiza uma análise apropriada e criativa sobre a pertinência da reflexão nietzscheana ao mundo (social, cultural e subjetivo) das práticas em Educação Física. O trabalho de Fidel é potente para, dentre várias das reflexivas possíveis, aprofundar conheciementos sobre o corpo vivo e seu fortalecimento. Apreciem o texto, comentem, entrem em contato para maiores informações sobre o GEPSAFE e nossos trabalhos!
 

Nietzsche e o conceito de força: uma inspiração para pensar a Educação Física

Fidel Machado Castro Silva


Este texto situa a Educação Física como um saber que opera com a educação do corpo, destacando nessa educação o conceito de força. Ainda que esse conceito refira-se, fundamentalmente, a elementos fisiológicos e biomecânicos, compreende-se que há uma projeção de sua representação no imaginário da área, compondo uma percepção híbrida do que significa o desenvolvimento da força. Propõe-se uma reflexão acerca do conceito de força e de homem forte a partir de elementos da filosofia de Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), contrapondo estes argumentos com o imaginário de força comumente presente na Educação Física. Percebe-se que a Educação Física parece ainda conceber e analisar os fenômenos ligados ao corpo de modo mecânico, até mesmo subserviente a padrões sociais de beleza e compleição corporal.
Averiguar os modos pelos quais o homem se relaciona com o seu corpo tornou-se uma problemática multifacetada, em que questões de divergentes esferas, como ética, política e estética influenciam diretamente no comportamento contemporâneo e precisam ser também consideradas.
Dadas essas reflexões iniciais, podemos afirmar que o corpo perfeito, presente, em uma parcela considerável do imaginário contemporâneo, recebe um tratamento dicotômico, pois, ao mesmo tempo em que é cultuado e enaltecido, é também domesticado e explorado. As intervenções no corpo estariam gerando um comportamento de aproximação ou de distanciamento do corpo que somos e de nós mesmos?
Destarte, refletir acerca dos valores morais presentes no ideal de corpo surge como uma possibilidade de inversão e tresvaloração do conceito atual de força citado anteriormente, para que, assim, possamos conjecturar a realização de uma educação ativa - e não passiva - da força. Dado que o nosso intuito primeiro é ampliar o espectro das formas como trabalhamos e concebemos o corpo, propomos uma reflexão sobre a Educação Física que busque tresvalorar essa força em uma volição energética ativa, e não meramente reativa.
No pensamento de Nietzsche, o corpo é algo incessantemente dinâmico. Todo esse dinamismo tem como matriz os conflitos e embates decorrentes das forças em luta. Toda essa movimentação incessante de energias e pulsões acontece no corpo. Jacubowski (2011) apresenta-nos uma interpretação da concepção de Nietzsche sobre o corpo, como um conjunto de forças antagônicas em constante luta por dominação. O corpo, dessa forma, é o, lócus dos instintos mais primitivos do homem, e todo e qualquer conhecimento que venha de encontro às pulsões e às volições energéticas instintivas é oriundo de uma fonte débil e doentia. Segundo Barrenechea (2009, p. 51): “o corpo é a expressão do dinamismo do vir-a-ser, jamais se fixa, jamais se estabiliza, mudando conforme o impulso ou o grupo de impulsos que, num instante efêmero, impõe sua vontade à comunidade orgânica”.
Nietzsche (2009) afirma que no corpo estão inseridos todos os instintos naturais e as forças que exprimem a vontade de potência. Entretanto, tais forças podem ser compreendidas de formas distintas, variando de acordo com a sua direção, caso tenhamos uma força oriunda de forma livre, afirmativa e espontânea. Em busca de dominação, criação e expansão, estamos, pois, diante de uma força ativa. A força é nesse caso compreendida como uma disposição energética volitiva inerente e imanente aos corpos, cuja potência se revela com variação e oscilação de intensidade que se renovam e se transformam indefinidamente.  Em contrapartida, caso tenhamos uma força que só age em reação às ações exteriores é preciso um outro, fora de si, para existir. Temos, portanto, uma força ressentida.
Analisemos essa força na qualidade de pulsões, afetos e instintos. Jacubowski (2011) afirma que o conceito de força, em especial, não diz respeito à capacidade de um “objeto” mover outro - seja por atrito ou ação muscular ou ação à distância. O conceito de força em Nietzsche, como já foi supracitado, remete à vontade de potência, à dinâmica das pulsões vitais, ou melhor, uma ânsia incessante de manifestar potência ou, simplesmente, o exercício da potência como força criadora que busca sempre tornar-se mais forte, cada vez mais.  É evidente, como sinalizado, que o conceito de força é fundamentalmente diferente na Filosofia de Nietzsche e na Educação Física. Poderíamos até dizer que se tratam de coisas absolutamente distintas e termos a impressão de um equívoco lógico ao se colocar estes dois conceitos que parecem estar unidos unicamente por serem homônimos. O que Nietzsche chama de força corresponde a um conjunto polissêmico de disposições do humano ao passo que, na Educação Física, o resultado prático da ação muscular convertida em esforço mecânico (físico) é o que está em foco. Contudo, se nesse texto, propusemos essa espécie de contaminação consentida entre as acepções é por compreendermos que, de modo subjacente ao conceito de força utilizado pela Educação Física, está presente uma concepção ampla de corpo, balizada pela educação moral, preocupações estas pertinentes ao conjunto da reflexão nietzschiana na qual o conceito de força está incluído. Em outros termos, se uma educação do corpo se restringe ao aspecto mecânico da força, ignorando que a ação do corpo é sempre a ação de um homem existencial, talvez haja aí um dispositivo de controle moral no qual o que se intenciona é um corpo reativo e não ativo.
Ao longo da história houve uma inversão conceitual em que o corpo forte, presente, em parte significativa, no imaginário contemporâneo tanto da sociedade como da Educação Física, parece preencher as premissas do homem fraco (ressentido) por diversos fatores. Dentre eles, ressaltamos três: a sua incapacidade e limitação de não aceitar as mudanças de compleição corporal advindas do próprio devir, recorrendo, por vezes, a procedimentos cirúrgicos para tentar atenuar os efeitos causados pela idade; o caráter passivo e não reflexivo das suas ações, que visam somente às formas imediatistas para atingir os fins; e a desatenção aos verdadeiros interesses e necessidades do próprio corpo. Apropriando-se de soluções comercializadas que em nada alteram ou suprem as reais carências somáticas e, principalmente, colaboram para a massificação e a homogeneização das formas de experienciar e de ser corpo.
A prontidão imagética de corpos sempre belos incute no imaginário social comportamentos para se buscar sempre o jovem. A beleza é reduzida a contornos corporais bem definidos e não como afirmação da efemeridade. A desatenção às necessidades do corpo promove uma aversão aos caos, ao grotesco, ao diferente, ao novo. Superar esses limites e imposições requer uma postura corajosa e afirmadora típica do forte. Viver norteado por um ideal de corpo implica em negar a vida como fluxo e movimento inexorável de energias, de forças distintas que se encontram em um frequente jogo agonístico. Dessa forma, supomos que, a partir do exposto, o homem fraco, para Nietzsche, é o homem sob o jugo da moral, da razão e da pesada tábua de valores, ou melhor, o homem reativo. Influenciado pelos valores superiores morais que o aprisionam e o impossibilitam de desfrutar dos prazeres e dos desejos emanados do corpo. Tal comportamento limita e reduz a capacidade do ser de expressar a sua própria força interior.


O corpo é fundamental para o aproveitamento de uma ética do querer-viver. Entretanto, não podemos nos prender à forma do momento presente, pois a própria ética do viver e do dizer “sim” à vida tem como prerrogativa basilar as mutações. O indivíduo ativo e soberano não teme a morte, pois seu espírito direciona sua técnica e sua energia para a vida, e não para a morte.
A força apresenta-se como uma tecnologia de transformação. A força ativa detém em si uma potência para realização de uma tresvaloração, compreendida como a capacidade de modificação e inversão da ordem vigente, para, assim, possibilitar uma libertação dos grilhões impositivos da distorção causada pela má interpretação da força.
A tresvaloração propiciaria, provavelmente, maior liberdade de aprendizagem e experiência dos corpos e fuga da domesticação do homem, como o próprio Nietzsche (2005, p.77) afirmou: “fugi do mau cheiro! Fugi da fumaça desses sacrifícios humanos”. São esses sacrifícios que, em suma, transformam o homem em um ser fraco e reativo. Vivemos em um tempo que nos induz a práticas ressentidas, passivas. A força e a autonomia dos corpos enfrentam resistências de âmbitos diversos. Por medidas provisórias, o corpo passa a sofrer cada vez mais coerções, reduções e desvalorizações.
Para que todo esse movimento de tresvaloração seja possibilitado, é imprescindível o reencontro do ser humano com seu principal aliado: o corpo e as relações de forças e instintos, ou melhor, o jogo de forças que o permeiam. A revaloração e a reafirmação dos significados, da importância que o corpo possui e foi perdida durante a história.
A Educação Física, na sua seara de educação do movimento, possui, como uma de suas razões de ser, o fato de que o homem é um ser corporal e motriz. Devido a essas características, carece de aprendizagem ampla e significativa das experiências corporais, para poder lidar de forma mais espontânea e autêntica com a sua corporeidade e com as diversas possibilidades de movimentações.
Permitir experiências de empoderamento sobre o movimento e o corpo é possibilitar uma educação da força, do movimento espontâneo. Entretanto, é preciso manter-se sempre atento para que tais experiências não incorram na armadilha do relativismo. O intuito é propiciar a ampliação e a perspectiva de ver o movimento humano como experiência corporal. Gonçalves (2012, p. 177) pondera:

É o homem todo que está em jogo, e levá-lo a viver com plenitude sua corporalidade, em sua abertura para o mundo, parece-nos ser o objetivo primeiro da Educação Física, objetivo que fundamenta todos os outros.

Consideramos proveitoso que a Educação Física possa condensar os saberes e ampliar toda a potência do conhecimento emanado do corpo, para que possamos dar vazão à filosofia vitalista e possibilitar dizer “sim” à vida, sem o jugo impositivo das normas e dos modelos corporais.
Por essas razões aqui apresentadas é que compreendemos a Educação Física também como agente da construção de saberes sobre o corpo e vetor de suma importância para a tresvaloração da força. Cabe a ela debruçar-se, com propriedade, sobre esse fenômeno cultural, polimórfico, polissêmico, central à vida, sem reduzi-lo às meras habilidades mecânicas.
Faz-se necessário refletir acerca do uso e da significação do conceito de força para vislumbrarmos um modelo de reflexão que apresenta uma alternativa não passiva nem mecânica para a educação da força. Reaproximar o homem da vida é reacender o seu princípio criativo. É reconciliá-lo com o seu corpo, sua grande razão, o seu maior sábio, só assim conseguirá aumentar a sua força.


REFERÊNCIAS:
BARRENECHEA, Miguel Angel de. Nietzsche e o corpo. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.
GONÇALVES, Maria Augusta Salin: Sentir pensar agir: corporeidade e educação. Campinas, SP: Papirus, 2012.
JACUBOWSKI, Felipe Renan. Nietzsche: O discurso de Zaratustra contra os desprezadores do corpo. Theoria: Revista Eletrônica de Filosofia, Pouso Alegre, v. 3, n. 6, p.142-156, jun. 2011. Quadrimestral. Disponível em: <http://www.theoria.com.br/?p=45>. Acesso em: 2 jun. 2016
NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
____________, F. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
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