segunda-feira, 1 de maio de 2017

Surfar exige presença



                                  Desenho de Alexandre Flores Torrano, o Tora ( http://toratoon.blogspot.com.br/ )


O presente texto é um ensaio escrito sobre a experiência de surfar, enquanto prática corporal e relação com o mundo da vida do(a) surfista. É parte do capítulo "Explorando a experiência de surfar: excrições sobre a vida dentro e fora do mar" de livro "Corpos Excritos" publicado em abril na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará. Para adquirir o livro, basta entrar em contato ou solicitar pelo site da editora CRV:
 





Surfista desde 1993, tenho uma relação afetiva e de compromisso com essa modalidade de prática corporal, que ocupa lugar central em minhas prioridades existenciais e estilo de vida. Escrevo, aqui, algo sobre surfar, amar o mar e o surfe e cultivar essa experiência em tudo que me é familiar e de contexto próximo. Desde 2013, como professor adjunto do Instituto de Educação Física e Esportes da Universidade Federal do Ceará, venho incluindo o surfe como objeto de pesquisa. Nesse contexto, resolvi socializar boa parte do que está no capítulo citado através do nosso blog. Dividi o texto em 4 partes (as quais compõem o capítulo): 1) De onde veio e o que é o surfe? ; 2) Verminosos por surfar, fissurados por onda, stoked; 3) “Essência” do surfar: a relação com as ondas; e 4) Surfar exige presença. Pra cada parte teremos uma publicação do blog.





Surfar exige presença

                                                                        Por Léo Barbosa Nepomuceno

Uma grata descoberta acadêmica dos últimos meses é a produção do alemão e do professor de literatura Hans Ulrich Gumbrecht. Na recente descoberta de seus trabalhos, interessou-me bastante uma parte específica de seu rico conjunto de ideias. Para o presente texto, que visa explorar a experiência de surfar, utilizo-me da ideia de presença apresentada por Gumbrecht (2010). Tal noção não se refere a uma relação temporal com o mundo, mas sobretudo uma relação espacial, marcada pela materialidade, pela dimensão física do real. O autor situa seus leitores sobre sua proposta de privilegiar a produção de presença:

Uma coisa ‘presente’ deve ser tangível por mãos humanas – o que implica, inversamente, que pode ter impacto imediato em corpos humanos. Assim, uso ‘produção’ no sentido da sua raiz etimológica (do latim producere), que se refere ao ato de ‘trazer para diante’ um objeto no espaço.[...] ‘produção de sentido’ aponta para todos os tipos de eventos e processos nos quais se inicia ou se intensifica o impacto dos objetos ‘presentes’ sobre corpos humanos (GUMBRECHT, 2010, p.13).

Sua proposta apresenta uma alternativa crítica aos projetos de pesquisa que privilegiam uma prática hermenêutica que acaba por atribuir um valor mais elevado ao sentido dos fenômenos do que sua presença material. 




A exploração da experiência de surfar, aqui esboçada, reconhece com Gumbrecht, que há um valor mais elevado em surfar do que discutir metafisicamente os seus sentidos. Nessa perspectiva, inspirados no autor alemão, entendemos que surfar exige presença, o surfe é sempre uma manifestação rica e profunda de uma relação com o mar e com as ondas, com a natureza expressa numa vida de praia, num encontro com a vida marinha. Essa experiência é sempre singular, mas coletivamente celebrada e cultuada. Surfar é um convite, forte como o destino, para atualizar a vida, pra vitalizar. 
Nesse sentido, entendo que o surfe é uma prática corporal rica e polissêmica que lembra a seus praticantes e, também admiradores, a importância da presença, da vivência corporal de estar presente em uma relação cotidiana com a natureza, com o mar, com a água salgada e seus encantos. Surfar é uma forma de lutar contra uma cultura que esquece a importância da presença ativa no mundo. Assim, pra que se possa alcançar alguma compreensão sobre a experiência de surfar, o que é o surfe e o encanto que o envolve, é preciso passar por uma relação em que oscilamos entre os efeitos da presença e os efeitos do sentido (GUMBRECHT, 2010).
É útil, no percurso dessa exploração da experiência de surfar, remeter-me novamente a Gumbrecht. O mesmo aborda a experiência esportiva, inspirado nos relatos do nadador e medalhista olímpico Pablo Morales, que relatou ter voltado às competições esportivas (após já ter se afastado) pelo viciante desejo de estar “perdido em intensidade focalizada”. Gumbrecht desenvolve as reflexões que lhe foram despertadas, a partir da expressão do atleta

"Em primeiro lugar, a expressão perder-se indica um isolamento peculiar e uma distância dos eventos atléticos em relação ao mundo do dia a dia e suas buscas [...] Em segundo lugar, aquilo em que os atletas e os espectadores ‘focalizam’ – como alguma coisa que está presente, ou algo por vir – pertence ao reino das epifanias, ou seja, aos eventos da aparência, mais precisamente aos eventos da aparência que mostram corpos em movimento como formas temporalizadas. Por fim, tanto a experiência quanto a expectativa de epifania vêm acompanhadas de – e ainda realçam – halos de intensidade, isto é, de estados de um grau quantitativamente mais elevado na consciência de nossas emoções e de nosso corpo” (GUMBRECHT, 2015, p.79).

A excitação alegre, que acompanha a experiência de surfar, é algo como uma intimação, um fascínio, que desenvolve a verminose ou o vício positivo pela atividade física e o contato com o mar. Como só é possível surfar com uma intensa presença e entrega, surfar é uma fonte de vitalidade. É uma loucura prenhe de sentidos, uma aventura envolvente, que nos conduz a se perder na epifania dos diálogos com as ondas, nos exige uma vida de forte presença e nos fortalece para levar a vida com mais potência.

Referências

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